Na fronteira : a maior aventura da minha vida : Final

Saímos pelo outro lado da “Estação ferroviária”, depois de  5 minutos de caminhada, chegamos perto de um campo de futebol. O campo tinha um murro em torno da linha de fundo, assim, você só poderia ver o campo das laterais. No primeiro momento, vimos somente  o muro, fomos contornando e chegamos a parte lateral onde podíamos ver todo campo. Um campo mal cuidado, sem redes no gols, grama amarelada e linhas de cal mal feitas. Em torno do campo, entre ele e o muro, existia uma pista de atletismo. Quando passamos o limite entre o muro e a parte lateral do campo, vimos que tinha alguém andando pela pista de atletismo, bem ao nosso lado, paralelamente. O sujeito media mais ou menos 1,70, loiro, olhos claros e forte para caramba, parece um tijolo(hahaha). Ele olhou para a gente e falou :

– Do you need help? (Vocês precisam de ajuda?)

Moçada, quando o sujeito falou isso, a nossa reação foi muito engraçada. Acho que uma reação parecida seria você estar em uma balada e o pessoal do bar gritar :

– MEIA HORA DE OPEN BAR!!!

A gente não acreditou, fomos praticamente correndo em direção ao cara. Acho que ele se assustou um pouco. Nos aproximamos e ficamos contando nossa historia para ele. Eu e o Lester de um lado do alambrado, ele do outro lado. Ele ouviu tudo pacientemente, disse que era policial e estava no dia de folga (olha a sorte dos meninos!). Olhou nossos passaportes e viu que éramos brasileiros. Pronto! Ele começou a falar que gostava muito do Brasil, principalmente do futebol. Ele era apaixonado pelo futebol.  Ele disse que sempre quis ir ao Brasil, porém a situação no país era difícil e conseguir dinheiro para viajar era impossivel. Mas era o sonho dele! Ele falou que conhecia várias coisas sobre o Brasil. Disse que a capital era Brasília, a maior cidade era “São Paulo” e o estado mais divertido era o Mato Grosso do Sul ( mentira, ele não disse isso, mas seria legal se ele tivesse dito!). Ele disse de novo o que a outra policial já tinha dito, a cidade era pequena, não tinha nada e seria difícil arranjar um jeito de sair dali. A gente desanimou, mas logo em seguida ele disse :

– Calma, vou fazer algumas ligações.

Ele começou a ligar para vários amigos perguntando se eles poderiam nos hospedar durante a noite. Eu e o Lester tivemos a impressão que quando ele dizia que a gente era brasileiro o pessoal desanimava(vocês sabem, o Lester fala croata fluentemente). Era o esperado, né. Imagina um amigo te ligando perguntando se você poderia hospedar dois eslovacos por uma noite. Deve ser a mesma coisa para eles, uma nacionalidade totalmente estranha e distante. Afinal, estávamos em uma cidadezinha muito pequena na divisa entre a Croácia e Lugar Nenhum( eu sei, eu sei, é a divisa com a Sérvia, mas eu guardo rancor!).

Ele ligou para várias e várias pessoas, ligou para um amigo que estava montando o primeiro hotel da cidade, mas ele ainda não tinha quartos disponíveis.

Ele terminou as ligações, olhou para a gente e perguntou :

– Vocês tem alguns euros?

Eu tinha em torno de 30 euros, respondi :

-Sim, nós temos.

– Se alguém levar você a uma cidade aqui próxima onde vários trens passam diariamente. Vocês poderiam dar um pouco de dinheiro para ele?

O que eu pensei em responder foi :

– Claro, eu dou o dinheiro, um rim e mais um orgão a sua escolha, se voce quiser.

Mas na realidade eu disse :

-Sim, com certeza, quanto ele precisaria?

-Uns vinte euros.

-Ok

Ele disse que iria pedir para a mulher falar com o sogro, se ele estaria disponível esse horário e poderia nos levar para a outra cidade. Pegou o telefone e ligou para a mulher, enquanto ele falava com ela, eu falei com o lester :

– Malandro, olha esse cara, no final do mundo da Croácia, fala bem para caramba inglês, gente boa para caramba, parece um toco de arvore de tão forte e ainda é policial.

O Lester respondeu:

– absurdo, né?

-Agora, imagina a mulher desse cara…

– No mínimo ela é linda, inteligente para caramba e engraçada. E olha o tamanho desse cara, ele deve comer um boi por dia.

– hahaha justo!

O cara terminou a ligação e disse :

– Bom, ele esta vindo já. Daqui dez minutos ele esta por aqui.

A gente não conseguiu nem esboçar um sorriso de tão cansado que a gente estava (hahaha) ,mas o alivio foi absurdo. Ele continuou :

-Voces jogam futebol (com a bola nos pés) ?

– Um pouco, mas a gente joga mesmo basket.

– Ah, legal.

Deu para ver a decepção nos olhos dele. Mas não tinha muito jeito, se a gente mentisse e começasse a jogar, ele veria o erro em menos de um minuto.Ele fez mais uma ligação enquanto esperávamos, nesse momento o Lester soltar :

– Ticiane, seria muito gay…

-Seria!

-Calma, cara, deixa eu falar.

– Fale…

-Seria muito gay se eu desse um beijo na testa desse cara, ele salvou muito a gente, cara. Eu estou muito frustrado de não poder devolver dez por cento do que esse cara fez pela gente.

– Eu estava pensando a mesma coisa, menos a parte do beijo…

O sogro do policial chegou, a gente colocou as coisas no carro e tentamos falar com ele. Ele não falava uma palavra de inglês. Arrumamos tudo, demos um aperto de mão e repetimos umas 30 vezes,” obrigado”. Voce pode achar que é mentira, mas quando eu olhei para tras, já com o carro em movimento,  eu vi alguma coisa batendo asas e subindo ao céu.[ =) ]

Bom, depois de um tempo de viagem que eu não tenho a mínima idéia de quanto foi. Chegamos! Chegamos a 7:00 pm e o trem para Zagreb era as 7:40. Dei o dinheiro que tinha para o senhor, dizemos obrigado, ele mostrou onde tinha um lugar para comer algo, sorriu e foi embora. Eu sentei e relaxei. Estávamos salvos! Por assim dizer né.. Afinal, iríamos chegar em Zagreb a 00:30 e não tínhamos plano nenhum.

Enquanto eu ainda estava refletindo sobre tudo isso, pensando como a nossa situação mudou drasticamente duas vezes em um só dia. Lester, com tranquilidade e um “foda-se” samaritano, me soltou :

– Bom, é isso, estamos salvos,vai ali na pizzaria pede duas brejas para a gente, eu vou ali na banca comprar um caderno e uma caneta, a gente precisa escrever tudo que aconteceu hoje.

Ele nem esperou eu responder, já virou e foi comprar as coisas. Demorou um pouco para eu sair daquela cadeira e ir pedir duas cervejas. Queria aproveitar aqueles segundos de alivio antes de fazer qualquer coisa. Cara, a cinco horas atrás nos estávamos indo para Istambul, há duas horas atrás nos estávamos em uma situação na qual  iríamos dormir no mato em uma cidadezinha na divisa de um país que a gente não fala a língua.

A gente sentou, pediu uma pizza para cada um ( na Europa, as pizzas são individuais).Lembro do alivio imenso no nosso rosto, conversamos sobre o trajeto que passamos, rimos um pouco e comemos as pizzas. Quando terminei a minha pizza,disse ao Lester:

– Lester, busca mais duas cervejas para a gente.

Lester, resmungou , como sempre, e foi buscar.

Enquanto as atendentes da pizzaria xavecavam o Lester pedindo para que a gente levassem elas para o Brasil, eu ria da situação e pensava na seguinte pergunta: e agora?

Não poderíamos entrar de novo na Sérvia, além disso, iríamos chegar a Zagreb as 00:30. Onde iríamos dormir? Como olharíamos os voos para os outros lugares?Será que os preços estão altos?

Quando entramos no trem e sentamos na nossa cabine, começamos a discutir a estratégia. Lembramos  que perto da estação tinha um McDonalds com Wi-fi e que ele ficaria aberto até uma da manha. Logo, teríamos meia hora para decidirmos nosso destino.

Bom, foram cinco horas de viagem, cinco horas de basquetebol e baralho. Nesse tempo a gente deve ter discordado  no mínimo 10 tópicos, o Lester deve ter falado no final que o Helinho é o melhor armador do país, mas eu não me lembro muito bem. No baralho, aconteceu o de sempre: perdi todas miseravelmente.

Legal foram as paradas nas cidadezinhas. Muita molecada pegava o trem para ir para as festas nas cidades vizinhas. Subiam e desciam dezenas de jovens com bebidas na mão, em turmas! Isso seria bem legal se existisse no Brasil, o custo de uma viagem de trem é bem menor que de uma viagem de ônibus, além de ser mais seguro!

Quando estávamos chegando já ficamos do lado da porta, quando o trem “pensou” em parar, nós já estávamos “voando para fora”. Corremos absurdamente pela estação. Cada minuto era muito precioso. Quase saindo da estação, olhei para trás e vi que o próximo trem passaria as 3 da matina em direção a Budapeste.

Chegamos no Mc, liguei o celular no carregador, Lester pediu os lanches enquanto isso. Entrei no Wi-fi e começei a procurar insanamente por passagens. Olhei todos os caminhos possíveis para a Rússia e para Istambul. Todos estavam absurdamente caros. Falhei miseravelmente…

Já estava eu la, suando e pensando em voltar para casa. Afinal, a gente tinha avião, hostel, tudo pago nesses locais, foi muito dinheiro jogado fora. Nesse momento o Lester chegou com o lanche e soltou:

– Tici, e ae, teve sorte?

– Não mano, fudeu.

Ele abriu o lanche dele e começou a comer bem devagar.

– Cara, ainda bem que eu estou aqui para salvar a gente.

– Como assim, Lester, você tem uma empresa de avião?

– Não, mas eu não ligo de conhecer Budapeste e Praga de novo. Você não conhece, né?

– Não conheço, mas cara, deve ta um absurdo para eu voltar para Lyon depois, absurdo mesmo. Imagina..

– Bom, vê ae cara, vai saber né.

Foi ai que eu digitei Praga-Lyon e me aparece uma passagem de 30 EUROS !!!!!!

-Lester..

-Oi..

-Partiu Budapeste.

-Gênio!!!!!!

Saímos do Mc com o dono gritando, querendo fechar a loja de qualquer forma.

Voltamos para a Estação ferroviária, esperamos até o trem. Fomos para a plataforma, virei para o Lester e soltei:

-Cara, sucesso, ninguém na estação, só a gente, viagem saindo daqui as 3 da manhã, vamos dormir horrores.

– Finalmente, né, Tutanca.

Pois é, mas o destino tinha outros planos para a gente. Quando o trem foi chegando, a gente percebeu que ele estava lotado. Quando digo lotado não estou me referindo as cadeiras, estou me referindo a pessoas em pé, pessoas viajando em pé entre os vagões do trem.

– Não é possivel, bem que meus amigos falam que eu sou um Gato Preto mesmo…

– Cara, jogamos algo na cruz hahaha.

Entramos no vagão, não tinha lugar para sentar no chão. Guardamos a mala em algum canto e tivemos que inventar. Deitei no espaço embaixo das cadeiras, ficando metade do meu corpo para fora. O Lester colocou a cabeça na minha barriga e dormiu perpendicularmente a mim. Sim, foi uma cena tão romântica quanto o Titanic. Mas naquela altura amigo, a gente nem estava ligando para isso.

E foi assim… Em Budapeste e Praga tivemos algumas outras histórias boas.. mas isso fica para uma roda de bar!

Essa foi a maior aventura da minha vida galera! Espero que tenham gostado!

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Na fronteira : a maior aventura da minha vida (parte 3)

Foi a   caminhada mais silenciosa que a gente fez na viagem, talvez na vida(haha). A ficha tinha e não tinha caido. Eu pensava muito em como sair daquela situação, mas meu raciocino varias vezes foi cortado por um pensamento :  jura mesmo que isso esta acontecendo? Um dia atras estávamos em um paraíso tropical, agua, luz, casa, moradia, comida, sabíamos a onde estávamos indo e onde poderíamos chegar.

Mas, naquele momento, não tínhamos mais nada disso. Não tínhamos a segurança de saber onde estávamos indo, não tínhamos qualquer tipo de comunicação(celulares sem bateria), não falávamos a lingua nativa e estávamos  andando em uma estrada deserta, sem muito dinheiro e sem perspectiva nenhuma de sair daquela situação.

Admito que no meio de toda aquela bagunça, por alguns momentos me veio uma sensação de liberdade. Por mais que a situação estivesse preocupante, naquele momento a gente estava realmente livre.

Uma sensação muito engraçada, afinal, a gente tem a impressão de ser livre no nosso cotidiano. Mas ao mesmo tempo, temos que estar categoricamente a um lugar as 8:00,  lembre-se de passar bem a camiseta(ou camisa), lavar o rosto e pentear o cabelo.As vezes ficamos horas em um lugar que não queríamos estar, com pessoas que não gostamos de conversar por medo de perder algo ou de não chegar em algum lugar. Mas fazendo isso, a gente já esta perdendo algo, não acham?. De bom dia para todo mundo no seu trabalho, afinal, voce pode ser mal visto. Se voce esta triste com alguma coisa que aconteceu na sua vida, paciência, voce não pode mostrar isso para ninguém.Eu sei, eu sei, muitos podem falar que a vida exige responsabilidade e ninguém vive sem dinheiro nesse mundo. Estou totalmente de acordo.Mas já pensou o quanto de coisas e verdades que voce segue no seu dia-a-dia sem ter nada a ver com responsabilidades?

Acho que era por isso que eu estava com aquela sensação. Mesmo com a angustia daquela situação, o lugar que a gente estava caminhando era realmente bonito e o tempo estava bonito. Lembro que até pensei em sentar e ficar um pouco ali curtindo a vista, mas achei a idéia realmente estranha (que de estranha não tinha nada), mas fui treinado (consciente ou inconscientemente) que deveria sair daquela situação o mais rápido possível. No meio de todo esse turbilhão de pensamentos, de repente, o Lester me solta :

– Posso saber o que o Ticiane está pensando?

Pergunta difícil, não ? Não lembro direito da minha resposta, mas foi algo como:

– Vamos ter que procurar uma forma de voltar para Zagreb ou conseguir esse visto sérvio.

Depois de mais algum tempo andando,chegamos no ponto de fiscalização da fronteira croata. Não havia nenhum tipo de procedimento para receber pedestres (obviamente). Então, ficamos eu e o Lester, na fila de carros sob os gritos dos funcionarios e policiais croatas. Eu, sinceramente, não entendi o  porquê eles gritaram a mesma coisa durante tanto tempo. Sério, nós dois estávamos com mochilas gigantes nas costas, bem morenos, com caras de perdido, ele realmente achava que a gente entendia alguma coisa?

Continuamos na fila, tentando fingir que não ouvíamos os gritos. Chegou nossa hora, encostamos na cabine, eu fui na frente, quando eu pensei em falar algo, o funcionário gritou :

-zauhon anfbfa ddazd.

Obvio que não foi isso que ele falou, mas como eu não entendo nada de croata,  não faz nenhuma diferença.Ele era um croata gigante, muito gordo e muito grande. O rosto dele não expressava boas impressões sobre a nossa presença.Aquilo assustava um pouco, por assim dizer. Eu parei, pensei e falei :

– Desculpa senhor, eu não falo croata, voce fala inglês ?

Ele me ouviu e soltou a mesma frase, acho… Foi nesse momento que  o Lester bruscamente pegou meu passaporte da minha mão, juntou com o passaporte dele, estendeu o braço  em direção ao funcionário gigante e falou :

– Huazrzaj nuzbfhaiz ahzhuaz.

Minha cabeça explodiu, o que o Lester acabou de dizer? O cara pegou nossos passaportes, colocou um sorriso no rosto, entrou no sistema, verificou todos os detalhes que deveria, deu de volta os passaportes e seguimos. Depois que estávamos uns 5 passos para dentro do território croata, virei para  o Lester e falei :

-Mano, voce falou o que para o Jabba ali atras?

– Cara, eu nem sei, respondi qualquer coisa.

– GÊNIO!

Essa passagem ainda é um mistério para mim, não sei o que realmente aconteceu… Andamos mais algum tempo, o lester diz que foi em torno de meia hora, eu realmente não sei. Chegamos a uma cidade pequena onde tudo estava fechado. Bares, restaurantes, farmácias. Era em torno de 5 horas da tarde de um sábado e não tinha mais nada aberto. A gente ia passando pelas ruas e quando víamos alguém( que não tinha medo da gente ) tentávamos falar com elas. Porém, ninguém falava inglês por ali, ninguém. Depois de algum tempo andando, uma mulher de em torno 30 anos estava passando de bicicleta, viu a gente e deu uma risada. Não perdemos a oportunidade e  perguntamos onde era a localização do bendito lugar onde poderíamos pegar o visto para a Servia. Ela apontou uma direção onde estava uma placa com um nome de uma cidade. Perguntei se era perto ou longe, meio por sinais, porque ela não falava muito ou entendi muito bem. Ela  disse usando os dedos que a cidade estava a 30 km de onde estávamos.

Eu e o Lester conversamos e decidimos desistir mesmo da Servia, não tinha muito jeito. Não sabíamos se esse lugar estava aberto ou não, não sabíamos como chegar, nem quanto tempo demoraria para conseguirmos um visto. Decidimos voltar para Zagreb e decidir por la o que faríamos.

A questão agora era : como voltar para Zagreb. Refletimos onde a linha ferroviária deveria estar e partimos em busca dela. Depois de meia hora de caminhada e mais alguns capítulos de mimica para se comunicar, chegamos a estação ferroviária.

Não era bem uma estação ferroviária, quando entramos, vimos que aquilo parecia mais um conjunto de escritórios. Um pequeno corredor ligava vários escritórios. Ao final do corredor, conseguimos enxergar um recinto com a luz ligada. A gente deixou qualquer regra de “etiqueta” de lado e entramos sem nenhum aviso.

O escritório estava todo bagunçado, com um monte de folhas em cima da mesa. Quando entramos, o senhor que estava trabalhando assustou! Tentamos varias vezes tirar qualquer informação dele, mas ele não entendia uma palavra do que falavamos. Deu para perceber que ele realmente estava se esforçando mas ele realmente não conseguia nos entender…Saimos do prédio, a esperança era achar mais alguém por ali que falava alguma coisa em inglês. Quando olhamos a esquerda, vimos um posto policial. Quando chegamos perto e começamos a falar inglês, entre os diversos policiais vimos que tinha uma policial jovem que realmente entendia o que a gente falava. Ela se aproximou e começou a falar com a gente. Explicamos nossa situação, enquanto isso, os outros guardas verificaram nossos passaportes.

Depois de tudo explicado e verificado, ela começou explicar a situação daquele lugar para a gente.A cidade era de divisa, não tinha mais de 1000 habitantes, não tinha hotel, não tinha hostel, não tinha rodoviária ou taxi. O melhor ela guardou para o final : o próximo trem que passava por ali sairia às 14 horas.Ou seja, não tínhamos lugar para ficar, não tínhamos como sair da cidade e o  tempo de espera para o próximo trem era de 21 horas. Ela disse que sentia muito e fomos embora.

Eu e o Lester fomos caminhando até a estação rodoviária, eu virei para ele e falei :

– Lester, eu preciso de uns 10 minutos sentado por aqui antes de a gente discutir o que fazer. Tranquilo?

– Tranquilo, mano!

Lembro de ter pegado algo que tinha para comer e fiquei sentado na estação. Sinceramente, não lembro o que eu pensei ou fiz naquela hora. A maré de azar era tanta que eu só queria ter um momento de paz antes de continuar a jornada. Eu lembro que ficamos comendo, quietos.. Quando passou meus dez minutos, Lester soltou a seguinte genialidade:

-Ticiane, foda-se mano, a gente esta com muito azar, só acontece cagada, só da coisa errada. Estou cansado de me preocupar e você? Vamos passar em algum lugar, comprar umas coisas para comer e varias brejas e mais bebidas. A gente fica por aqui, tem aquele canto ali com o gramado embaixo das árvores. A gente come para caramba, enche a cara e dorme por ali mesmo. Fechou?

Foi nesse momento que eu dei graças a Deus de ser o Lester o meu companheiro na viagem. Enquanto a grande maioria das pessoas que eu conheço enfartaria quando saísse do trem na Sérvia, o menino tinha senso de humor e coragem para naquela altura do campeonato soltar uma coisa dessas. Eu dei muita risada e aceitei a proposta! Não tínhamos muito mais opção né!

– Fechou!

Na fronteira : A maior aventura da minha vida ( Parte 2)

Segunda parte : a viagem magica.

Bom, pegamos o ônibus e a balsa para voltarmos para Split. Chegando em Split, tínhamos 3 horas para fazer todos os preparativos da viagem(A Viagem). Nós compramos muita coisa: lenços umedecidos, papel higiênico, pães, frios, bolachas, agua, sabonete.Nós dividimos os produtos entre os dois mochilões e partimos para a estação ferroviária. Foi nesse momento, sentado, comendo algo na estação que o Lester perguntou um detalhe sobre a viagem que eu não tinha levado em consideração :

– Ticiane, meu, olha esse trem que esta parado ali fora! Destruído! Os trens internacionais são desse jeito também? A gente só vai pegar trem velho?

– Nada, manow.  quando eu  usei o pacote, eu só peguei trem bom. Deu para deitar, dormir e a temperatura da cabine era controlada.

– Po, ainda bem, meu! Aqui na Croácia tem muita coisa destruída, eu estava com medo que os trens fossem assim também!

      Foi nesse momento que a ficha caiu: eu usei o pacote durante a minha viagem pela Alemanha e Suíça, por acaso dois dos países mais ricos da União Européia. Parece lógico que os trens por la sejam novos, rápidos e pontuais. Agora, pensar que a Croácia, um país que passa por dificuldades econômicas e crises de corrupção durante os últimos anos, teria trens bons, não parece tão lógico?

      Decidi não questionar isso abertamente e esperar pelo melhor. As vezes, a gente poderia ter sorte e pegar um trem novo, não tinha porque contar minha linha de pensamento para o Lester .(acho que ele esta descobrindo o que eu estava pensando naquele momento só agora).

      Nosso trem partia  as 21:15, as 20:30 um trem chegou a estação, novão, bonito, um design daqueles trens ultra-rápidos. Pensei: sucesso, não teremos problemas com um trem igual a esse.

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Porém, o trem partiu.Quinze minutos depois , nosso trem chegou a estação. Eu poderia descreve-lo  por aqui, mas colocarei uma imagem que sintetiza todo o meu pensamento :

Nosso trem

Nosso trem

 

      Admito que ele não estava tão pixado quanto esse, mas estava mais sujo, eu garanto. Lester olhou para mim e soltou  “só peguei trem novão…”( haha).Entramos no trem e encontramos a cabine onde passaríamos a noite. De novo, poderia dar N adjetivos para a cabine, mas uma imagem diz mais do que mil palavras:

Cabine

Cabine

Essa imagem que eu encontrei na internet é exatamente como era nossa  cabine. Não é parecida , é igual!

Eu escolhi um lado da cabine, Lester escolheu o outro, jogamos um pouco de baralho, comemos e dormimos. Quer dizer, tentamos dormir… Foi nessa hora que a brincadeira começou. O trem não tinha sistema de ventilação,a janela ficou aberta a noite inteira. Eu não sei se subimos montanhas  mas o vento que entrava pela janela era absurdo, dava aquela falsa impressão de frio. Além disso, o trem parou em muitas cidades. O problema aqui não é que o trem parou, mas o que acontecia a cada parada.. Para avisar o “maquinista” que ele poderia partir, o funcionário da estação apitava! Como todas as janelas estavam abertas, o som do apito ficava muito alto dentro da cabine! Assim, a cada parada do trem, eu acordava assustado ( o Lester também).Além disso, durante toda a noite eu estava sentindo um cheiro muito forte dentro da cabine, não sabia o que era direito, parecia cheiro de mortadela.

Eu pensei: po, não é possível, nunca vi mortadela por aqui, deve ser o cheiro de alguma coisa que caiu por aqui antes de nós chegarmos  a cabine. No outro dia, o Lester me falou que o cheiro era realmente de mortadela,ele tinha comprado em Split… Agora, a razão pela qual ele não ter levantado e jogado fora ou deixado em outro lugar a mortadela, eu não sei, se você quiser perguntar para ele, meu caro leitor, eu agradeceria. Não fiquei bravo, depois das lambanças que eu tinha feito durante a viagem, não poderia reclamar.

Por fim, para melhorar nossa noite, tínhamos visitas a duas paradas! Como a Croácia passa por um período ruim economicamente, muita gente deve pegar trens clandestinamente(minha hipótese).Dessa forma, os vigias e operadores dos trens passam periodicamente nas cabines pedindo a passagem e a ID!!

Até ae tudo bem, mas  o nosso trem tinha vigias especiais, eis as duas peças que nos visitaram durante a  noite :

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      Eles chegavam quase quebrando a porta da cabine e gritavam:

– ID!!!!!!!!( pense na voz mais grossa possivel)

     Na primeira vez, o Lester deu um pulo assustado e falou na frente dos vigias :

– Capitão Guile.

Eu levantei logo em seguida e soltei:

-Chewbacca.

      Os dois vigias não entenderam nada, a gente se segurou muito para não cair na gargalhada. Eles ficavam com a cabeça abaixada para não bater no teto. Eu não lembro uma única vez que não pensei que iria morrer quando eles apareciam na cabine.

      Eu não via a hora de chegar em Zagreb. O trem acabou chegando no horário marcado. Nós aproveitamos o intervalo que teríamos até o próximo trem e fomos ao banheiro, fomos tomar café da manha no McDonalds (saúde, a gente se vê por aqui) que tinha ali do lado da estação e mexer um pouco na internet.

      Voltamos para estação quando faltava 1 hora para o embarque, jogamos tranca até o horário de embarque. Esse jogo foi uma constante na nossa viagem, as minhas derrotas para o Lester também foram constantes….

      Enfim, pegamos o trem! Andamos vários vagões até encontrar lugares vagos. A galera sentava em um lugar e colocava a bagagem no outro assento para que ninguém sentasse ao lado. Pessoal do Leste europeu meu lembrou um pouco o espirito paulistano.

      Sentamos finalmente. Comemos, lemos livros, jogamos mais baralho e conversamos sobre basket (Lester tentou me convencer a viagem inteira que o Nezinho é o melhor armador que o Brasil já viu, maluco!).

      Esse trem foi um marco para nós. Ele nos mostrou uma outra face da Europa. Uma face que não esta nos cartões postais, não passa na televisão e que para muitos europeus, nem existe! No trem, as mães davam pão para as crianças durante a viagem, mas não era pão com manteiga, pão com mortadela, era pão puro. Pedaços de pão puro que não pareciam ser muito novos. Pessoal bem simples, com roupas muito simples.O  sofrimento se via no olhar, com apenas um cruzar de olhos, você já sentia um pouco o que  o pessoal ali estava vivendo.

   Curiosidade: um senhor que estava dormindo ao lado do Lester, dormia com um olho fechado e um olho aberto, tínhamos desconfiança de estar ao lado de um agente especial altamente treinado.

      Bom, pelas 2 horas da tarde chegamos a fronteira entre a Croácia e a Servia. Dois controladores sérvios entraram no trem e começaram a verificar o passaporte de cada um, um homem e uma mulher. O homem ficou do nosso lado do trem e a mulher do outro. Ele chegou até nós, pegou nossos passaportes, olhou durante alguns segundos e carimbou a entrada. Pensamos: sucesso! Entramos na  Servia.

     Porém, depois de uns 10 minutos, a mulher que estava do outro lado do trem, voltou ao nosso vagão e falou em inglês :

-Quem são os brasileiros?

      A gente levantou a mão, ela veio até nós e pegou nossos passaportes. Olhou durante 1 minuto ou dois,virou para a gente e falou em inglês :

-Vocês não podem entrar, vocês devem descer. ( na verdade foi algo em torno de “No Visa, No Serbia”

      A gente  perguntou a razão:

-Vocês não são cidadãos europeus, não podem entrar.( na verdade foi algo em torne de ” No  European, No Serbia”

      A gente explicou para ela que tínhamos vistos europeus, que não pararíamos pela Servia e seguiríamos viagem. A cada frase que a gente falava para ela, ela soltava :

-Vocês não podem entrar, vocês devem descer.

     Não teve jeito,pegamos nossas coisas, descemos,ficamos do lado do escritório deles enquanto nossos passaportes eram vistoriados.Eles ficaram com o nosso passaporte durante 40 minutos, mais ou menos. Enquanto isso, a gente estava ao Sol, não tínhamos nenhuma informação ou alguma idéia do que iria acontecer.

      O que passava na minha cabeça era que pegaríamos o próximo trem  de volta para a Croácia. Ou teríamos que provar alguma coisa. Depois de 40 minutos ela voltou e falou:

– Sem visto, nao podem entrar.

     Tentamos discutir, ela não quis nem saber, aumentou a voz, esperneou, o inglês dela era péssimo.

      Bom, eu vi que não teria jeito, teríamos que voltar.Provavelmente eles nos colocariam no próximo trem de volta para Zagreb… Foi nesse momento que veio a surpresa:

-Meu companheiro vai levar vocês de volta.

     De novo, a imagem que eu tinha é que o companheiro dela levaria a gente para dentro da Croácia, para alguma cidade, assim poderíamos voltar para casa. O Lester olhou para mim e falou:

-O que a gente vai fazer, cara?

-Acho que não tem jeito, dependendo de como falarmos com essa mulher podemos ficar encrencados por aqui, vamos com o amigo dela e ver o que a gente pode fazer.

     O  companheiro dela levou a gente para um  veiculo que parecia uma Combi antiga. Entramos na Combi na parte de traz, ele foi na parte da frente, começou a dirigir, sem falar absolutamente nada.

      Ele dirigia pela cidade com velocidade absurda. Além disso, todas as janelas do veiculo estavam fechadas. Junta-se isso a tensão que estávamos sentindo, o veiculo parecia uma sauna. Lembro de olhar para a janela e pensar que estávamos na década de 70. Os carros naquela cidade da Servia eram muitos antigos, todos batidos, com pouca pintura  as casas eram muito antigas. Uma pobreza absurda.

      O mais engraçado é que durante nossa discussão com a funcionária, ela aparentava nos acusar de querer ficar no país dela. Deve ter achado que fomos para Servia para trabalhar, procurar condições de vida melhores. Bom, vendo tudo aquilo, acho que ela deveria ler um pouco mais sobre o Brasil…

      Ele finalmente chegou ao fim da cidade e começou a dirigir por uma estrada. A estrada era de duas vias, uma grande plantação se extendia nos dois lados da estrada.  Não se via casas, não se via o fim da estrada, não se  via pessoas ou outros carros.O carro começou a acelerar, chegou um momento que a velocidade era tão grande que o carro parecia que iria desmontar.Lembro de olhar para o Lester, ele olhar para mim e a gente não conseguir falar nada.

Na minha cabeça eu tentava achar alguma solução para aquela situação. Lembro de ter criado vários cenários e para cada um deles eu não encontrei uma solução razoável possível.

Enfim, vimos a frente uma barreira rodoviária. Quando o carro foi se aproximando, descobrimos que era a  fronteira rodoviária territorial da Servia.

O carro passou a fronteira, deu meia volta, desligou o carro, abrir nossa porta, colocou as coisas para fora, olhou para gente e falou “I’m sorry”, subiu no carro e foi embora.

    Não vou dizer quantos chingamentos passaram pela minha cabeça quando ele falou “I’m sorry”.Por mais que a gente tenha errado em relação a questão do visto, esse tipo de tratamento era ridículo. Você retira duas pessoas de um trem, não da muitas explicações, as deixa na fronteira rodoviária e vai embora. Se isso for o procedimento normal, alguma coisa está errada. E o pior, ele sabia que não estava fazendo a coisa mais certa do mundo.

    Uns 5 funcionários estavam trabalhando naquele momento na barreira rodoviária,tentamos falar com vários deles, a maioria não falava inglês, quando encontramos uma  funcionaria que falava inglês,ela nos falou:

– Não vai ter muito jeito pessoal, vocês devem retornar a Croácia, pegar um visto por la e depois voltar para ca. Existe um consulado bem perto da fronteira, vocês podem ir até la e voltar.

      Eu e o Lester discutimos, não estávamos com bateria de celular, não  tínhamos dinheiro vivo, vimos que a mulher não poderia ajudar a gente. Não tinha outro jeito, a gente tinha que voltar mesmo para a Croácia e conseguir esse visto. O pior, tínhamos que fazer isso a  pé. Olhamos para o outro lado da estrada e vimos que uns  2000 metros a frente estava a barreira rodoviária de fronteira da Croácia, colocamos o mochilão nas costas e começamos a marchar em direção a ela….

CONTINUA!

Na fronteira : A maior aventura da minha vida

Primeira parte: preparativos e primeiros tropeços.

      O  propósito do blog não é contar as historias e viagens explicitamente. Ja tinha dito isso por aqui.Mas essa historia que contarei, merece a excessão. Eu já aviso, ela é um pouco comprida.Cortei algumas partes menos significativas e dividi em capitulos para ficar menos cansativo. O relato é detalhado, mas nesse caso, ele vale a pena.

Vamos  começar com alguns dados da viagem:

Integrantes : Leonardo Fernandes Augusto e Luis Felipe Ticianeli Ferreira.

Países escolhidos : Croácia, Turquia e Russia.

Meios de transportes : Avião e trem.

      Com o intuito de facilitar nossos deslocamentos durante a viagem, compramos um  pacote de viagens de trem chamado “Interail”.       O pacote funciona da seguinte forma : cada plano oferecido é relacionado a uma quantidade dias de viagens de trem( não importa quantos trens você pegará por dia, você pagará por dia utilizado). Funciona em grande parte  das empresas ferroviárias da Europa,  na maioria dos casos você não precisa comprar  bilhetes ou reservar assentos. Assim, o ganho no quesito tempo e comodidade na viagem é grande.Eu já tinha utilizado esse pacote durante minha viagem de final de ano pela Alemanha.Inicialmente queríamos  visitar a Grécia antes da Turquia.  Quando começamos a planejar os detalhes  da viagem e olhamos as linhas ferroviarias da Europa , nos deparamos com o seguinte fato : a Grécia tinha cortado todas linhas ferroviaria internacionais. A reação foi mais ou menos igual a essa : http://www.youtube.com/watch?v=uvqJ1mTkEuY

      Bom, discutimos bastante o caso, estudamos alternativas e chegamos a um resultado.Decidios ir  direto da Croacia para a Turquia,afinal, ja tinhamos comprado o pacote de trem.A solução parecia genial. Olhamos no site da empresa ferroviaria da croacia e vimos como seria o trajeto:

    Split -Zagreb : 21:00 Sext – 6:30 Sabado

    Zagreb- Capital da Servia  : 10:30 -17:30 Sabado

    Capital da Servia- Sofia : 22:30 – 6:30 Domingo

     Sofia – Istambul :  20: 00 – 6:30 Segunda.

Três noites e dois dias dentro de um trem.Sem cama, sem chuveiro.As frases que sairam da nossa boca quando vimos o trajeto foram :

“vai ser animal”  

“viajar cheirosinho no avião é facil”

“ Into the wild style”

“ Isso sim vai ser mochilão”

“ vamos conseguir ainda conhecer um pouco de Sofia e Capital da Servia”

“ Tres dias de viagem é tranquilo.”

“ A gente leva um baralho, livro e ficamos discutindo basket a viagem inteira, vai ser tranquilo.”

“Fatiou.. passou…”

Finalmente, chegou o dia! Começariamos a viagem!

      O avião partiu de Paris, Nós tivemos alguns problemas iniciais causados pela pessoa que aqui escreve, mas me nego a contar essas pequenas fatalidades (haha).

      Primeira cidade : Zadar. Foram dois ou três dias por la, cidade magnifica, tranquilidade, Lester ensinou os croatas a dançar, tudo deu certo.Curtimos a praia,preço baixo da comida,das bebidas e  conhecemos um casal muito gente boa, Anna e Daniel. Falando nisso, se vocês estiverem lendo por aqui: salve, salve Alphaville!

      A viagem de Zadar para Split queríamos  fazer de trem. Os dias do pacote estavam sobrando. Mas, no ultimo dia em Zadar, nós conversávamos com um croata que vendia viagens turísticas  de barco. Ele nos disse que a croácia no foi feita para se viajar de trem e que a viagem de trem seria três vezes mais demorada do que a viagem de ônibus. Além disso, o preço da passagem de ônibus era muito barata.

      Mudamos de planos e fomos de ônibus! O ônibus deveria ter uns 30 anos.O tecido do assento era muito velho, não tinha ar condicionado e a distancia entre as cadeiras era muito pequena. Não tinha uma posição possível onde eu não sentia dor nos joelhos.

      Foi nessa viagem que o senhor Leonardo mostrou seus super poderes. Ele deu uma aula pratica de como dormir em todas as posições possíveis dentro de um espaço mínimo. Acredite em mim, o cara é bom. Eu sou conhecido por familiares e amigos por ser  um cara que dorme durante toda e  qualquer viagem, não importa o carro, o tempo ou o destino. Mas  eu estava  la, com meu 1,84 de altura,não conseguindo dormir naquele calor e com aquele espaço mínimo disponível. Enquanto isso, Leonardo, com seu 1,92 de altura , dormia ao meu lado o sono dos deuses. Foi a minha primeira viagem de ônibus que eu não dormi ao menos meia hora, eu passei em claro.

      Bom, chegamos em Split. Uma cidade grande, vende-se aperitivos na praia, existem bares na orla e a praia é de areia.Sim, todas essas características na Europa não são normais. A idéia de ficar um dia e meio pela cidade decorreu pelo custo alto de Hvar, uma ilha que é próxima de Split. O intuito inicial era conhecer somente Hvar, mas como não tínhamos muito dinheiro, decidimos dividir nossa estadia.

Praia Split

     No dia da viagem para Hvar, precisávamos sair do hostel bem cedo. Para nossa surpresa, o dono do Hostel tinha fechado todas as portas . O cara simplesmente deixou os hospedes presos no hostel.

      A gente estava trancado e sem saída. Depois de procurar por  alguma saída possível ( não poderíamos esperar o dono voltar, se esperássemos, perderíamos a balsa). Saímos por uma janela. Durante o caminho até a balsa que nos levaria a ilha, eu decidi checar a reserva do hostel da ilha no meu celular. Entrei no meu gmail, procurei por “hostel’.. nada… Procurei por Hvar, nada….

Olhei para o lester, ele estava com aquela cara de Mutley que ele fica até tomar o seu primeiro café.

Lester

      Quando contei o fato, ele respirou fundo para não me dar um soco na boca e  decidiu procurar melhor e ver  se eu tinha esquecido mesmo. Procuramos e procuramos e o pior tinha mesmo acontecido, eu não tinha reservado o hostel.

      Depois de conversar um pouco, decidimos arriscar, fomos sem reserva e procurar alguma vaga quando chegássemos ilha.Chegando na ilha, pegamos um ônibus para chegar realmente na cidade, paramos em um bar, pedimos uma coca (regra numero um: beber cerveja antes das 10:00 é perigo de alcoolismo).Entrei no HostelWorld, um site muito utilizado por aqui para procurar e reservar hosteis. Resultado: só tinha um hostel com vaga e somente um tipo de quarto disponível. O hostel disponível era o mesmo que pensei ter reservado o quarto anteriormente. Mas o quarto disponível agora custava  50 euros a noite, bem diferente dos 33 euros  a noite que tinha pensado ter reservado. Afinal, agora o quarto era triplo e não quadruplo como o planejado.

     Resolvemos comprar diretamente o quarto no Hostel. Pensamos na chance de algum quarto estar  vago e  não ter aparecido no site. Colocamos o mochilao nas costas, o endereço do hostel no GPS do celular e partimos. Subindo o morro da ilha, 35 graus no lombo, Sol de meio dia.

      Chegando no hostel, o atendente foi muito simpático. Acolheu bem a gente  e disse que procuraria quartos livres. Entrou no computador e falou:desculpa pessoal, agora eu só tenho livre uma suite, com cozinha, ar condicionado, TV e sacada”. A gente não se olhou depois que o atendente falou isso, mas eu acho que estávamos pensando a mesma coisa : deixaríamos nossos rins naquele lugar. O atendente continuou “O Preço do quarto por dia é igual a 3 mil Kunas”, eu não lembro o valor que ele falou, coloquei qualquer valor alto ali porque a quantidade de dinheiro era grande. Ele viu nossas caras de assustados e percebeu que não sabíamos quanto isso representava de verdade. Ele refez os cálculos e disse : “O preço do quarto fica 35 euros a noite”. 35 EUROS! 35 EUROS! Dois a mais do que pagaríamos, porém em um quarto  com cozinha, banheiro e tudo mais. Não acreditávamos, lembro de a gente se contei muito para não gritar de felicidade(hahahaha). Até hoje eu não sei como aconteceu aquela magica.

  Passamos nossos dois dias pela ilha, tudo foi tranquilo. Anna e Daniel, o casal que conhecemos em Zadar, também estava na ilha. Fizemos alguns passeios juntos de casal, Lester e eu, Ana e Daniel. Um acontecimento interessante nessa história foi durante uma das noites pela cidade. Estávamos do lado de um bar( viu, Bruno e Guegs, bar!) nós quatro, conversando entre nós e com o pessoal que passava e a Anna atraindo a atenção de todas as mulheres que passavam( haha). Conversamos com brasileiros de todos os cantos possíveis. Porém, um se destacou, mas antes de contar como foi nossa conversa com ele, devo contar uma das  teorias do Lester(Leonardo). Ele diz que é possível com apenas  quatro frases seguir e acabar com uma conversa com alguém desinteressante, falando “agua”. As frases na seqüência são :

– é mesmo?

– Poutz que fita!

– Tem que ver isso aí hein!

– Mas áh! isso varia de pessoas pra pessoa.

Bom, Lester contou todas as vezes que ele usou essa técnica, todas elas com sucesso. Então,voltando ao nosso amigo… Ele estava passando e ouviu nós falando português, virou  e soltou :

– Brasileiros?

-Sim!! (estamos animados ainda)

– Que legal, eu sou brasileiro também. Vocês são de qual cidade?

– De SãoPaulo ( falaram os três, eu não disse nada, mas o cara nem percebeu.)

– Eu também sou de São Paulo, meu!  Vocês moram a onde por la?

– Vila madalena ( acho que o Lester foi o primeiro a responder e ele não esperou a Anna e o Daniel responderem).

– Legal! Meu, eu sou de Alphaville!

– Que bad, cara. Condominio fechado é triste.( alguém respondeu)

– Bad nada, la é mó legal, meu. Só os ricão!

Risada da nossa parte.. dois segundos depois, algum gênio soltou :

– é mesmo?

O cara estranhou mas  continuou:

– Meu, mas aqui nessa ilha tem muito Brasileiro né, impressionante.

— Poutz que fita!

-Ja foram  no Bar X? Eu fui la ontem, tem muito brasileiro por la.

– Tem que ver isso aí hein!

-Tinha um pessoal de São Paulo, mas tinha aquela galera do RESTO do Brasil sabe, mas nem dei bola.

– Mas áh! isso varia de pessoas pra pessoa.

E foi assim que criamos os bordões: #alphavilleénois e #sóosricões. Além disso, comprovamos a teoria do Lester. O meninão se fingiu de surdo e foi embora.

No ultimo dia,empacotamos as coisas, conhecemos mais um pouco a ilha com a Anna e o Daniel, almoçamos em algum lugar legal e nos preparamos para a verdadeira aventura: a viagem de 3  noites. Naquela altura não tínhamos nem idéia do que nos esperava e já te digo, não foi pouca coisa não….

(Continua em um próximo post)

Oriente

A gente não sabe muita coisa sobre o Oriente. Acho que isso não é uma característica exclusivamente brasileira mas sim do ocidente.  É uma sensação estranha. Parece que o Ocidente acredita que o outro lado do mundo, não é uma outra metade mas sim um apêndice ao que vivemos desse lado. Eu não estou me referindo a aspectos econômicos e políticos, seria falta de informação da minha parte. Nesses quesitos o Oriente entrou no  mapa ocidental faz tempo. O que eu me refiro é ao conhecimento da cultura, aos fatores humanos  que cercam os dois lados do mundo.

No geral, se fosse para eu chutar o que nós brasileiros pensamos dos orientais :pessoas  que trabalham muito,  estudam muito, são introvertidas e tem hábitos estranhos.

Tenho a oportunidade de  conhecer os orientais todos os dias na faculdade, desde o meu primeiro dia. No começo, quando não estava na faculdade ainda, via eles turistando por aqui. Eles estão por toda a Europa, com suas câmeras poderosas, com seu olhar veloz e sua ansiedade de conhecer os lugares. Você pode vê-los desde o Louvre a até  uma reserva florestal na Croácia.Sempre acompanhados de um guia explicando cada pedacinhos das cidades que eles estão visitando.

Depois, convivi diariamente com eles na minha faculdade, os estrangeiros de maior concentração são os chineses, seguido dos brasileiros. Depois de um ano de convivência, deu para aprender muita coisa sobre a cultura deles, sobre o seu dia a dia e sobre sua forma de pensar. Mas, se fosse para sintetizar eles de alguma forma, eu diria: aguerridos.

Imagine  você, amigo que esta lendo a esse  texto, chegar em uma terra bem longe da sua casa (mais precisamente 8.322 km para a capital chinesa),onde todas as pessoas sabem no instante que você olha para elas que você não pertence aquele lugar. Quando eu digo “não pertence” quer dizer que  a chance de você ser natural daquela região é mínima. Soma-se isso a língua. Ela é tão diferente, mas tão diferente, que você faz um esforço absurdo para dizer a seguinte frase: ” Eu me chamo Joao”. Como se não fosse bastante,os costumes das pessoas são tão diferentes que em muitas situações você não vai saber como deve se portar e na maioria das vezes vai deixar alguém passar a sua frente, ver como ela faz e depois fazer a sua tentativa.Você estrangeiro não oriental que esta lendo o texto e pensando ,”Po, comigo também acontece isso “. Por favor, pare, a intensidade é bem diferente.

E a comida? Pois então, a comida é completamente diferente, inclusive os horários que você deve jantar e almoçar. Você pode até encontrar comidas da sua terra, mas vai ter que procurar um pouco e fazer elas por você mesmo. As pessoas   tem vergonha de perguntar qualquer coisa sobre sua terra natal, por três motivos principais: eles não sabem praticamente nada da sua cultura, não acham que deveriam  saber e as informações que são passadas via mídia local mostram sua terra como um lugar de um amontoado de pessoas vivendo extremamente mal.

Por fim, provavelmente por causa de todas essas diferenças citadas, você sofre preconceito diariamente. Desde uma pessoa não de te desejar “bom dia” quando passa, até  o fato de as pessoas te considerem estúpidas pela sua enorme dificuldade com a linguística.

Pois é, é mais ou menos isso que um chinês tem que lidar em um país como a França.

Mas o que eu percebi e o que me impressionou(e é o motivo de eu estar escrevendo sobre eles) é o humor e a forma com que eles levam tudo isso. Por mais que as coisas estejam difíceis e por mais que você não os trate como deveria, eles vão tratar você e todo  mundo de uma matéria mais leve possível na maioria das vezes.

A força de vontade chega a assustar as vezes, lembro de ver algumas vezes chineses lutando contra o sono  durante uma aula. Quando eu digo lutar, não é a tradicional luta de aluno universitários em sala de aula. Ele realmente gostaria de ver a aula mas não conseguia! A cabeça mexia para la e para ca, as pálpebras caiam, ele assustava , levantava a cabeça e voltava a atenção. Cinco minutos, o processo acontecia de novo. Outra vez, lembro de estar descansando na grama depois do almoço durante o curso de francês em Vichy, comecei a escutar alguém dizendo alguma coisa meio incompreensível. Procurei e encontrei um chinês atras de um arbusto, em pé, ele repetia 20 vezes cada palavra em francês de uma lista que estava em suas mãos. Fiquei uma hora descansando, ele ficou uma hora repetindo. Não acreditava no que eu estava vendo.

Uma ultima historia que posso citar aconteceu no meio do ano letivo por aqui. Eu e meu grupo de uma determinada matéria tínhamos que fazer uma apresentação oral. Lembro que cada um estava designado a 3 slides. Eu estava preocupado  aprender bem o que eu deveria dizer, decorar cada parte, saber a entonação. Fazer uma apresentação oral em outra língua é uma das situações mais complicadas por aqui, pelo menos na minha visão. Lembro estar bem preocupado com a quantidade de tempo que perderia para apresentar bem a minha parte e as 20 vezes que eu  deveria repetir o texto para decora-lo bem. Quando, um colega de grupo virou para a gente  e disse : “Ja escrevi meu texto, agora só falta repetir 500 vezes”. O melhor, é que todo mundo pensou que aquilo era uma piada, menos ele.

Tudo isso que eu observei e ainda observo faz eu ter cada dia mais respeito por eles. Afinal, além de tudo isso, eles tentam engolir a maior quantidade de informação possível sobre a sua cultura. Tentam entender , por muitas vezes, as diferenças existentes entre os costumes. Não desistem de se habituar a vida ocidental, de aprender a língua e buscar melhorar de alguma forma.

Eu, sinceramente, se fosse alguns deles e vivesse esse cotidiano, já teria voltado a minha terrinha. Se você nunca viu o cotidiano deles, não me julgue por dizer isso. Se você já viu, deve compartilhar a mesma  opinião que a minha.

O Ocidente deveria tomar cuidado, enquanto eles não sabem nada sobre o que acontece do outro lado, a outra parte esta cada vez mais consciente  das varias características ocidentais.

É obvio que existem exceções e contra-exemplos, estou apenas expondo o que eu vi por aqui de maneira geral.

1 ano de França

( Revivi o Blog, vou postando algumas coisas que aprendi e venho aprendendo por aqui, esse é o primeiro de uma série de posts).

 

 

Um ano de França!

Acho que quanto mais o tempo passa, mais eu compreendo o significado da expressão  “pensar fora da caixa. Não no sentido padrão, mas em outro. Tenho a impressão  que as pessoas veem muita coisa da vida em caixas. Todas vivem em caixas e olham por cima das abas as caixas em volta. Existe a caixa da guerra, a caixa da separação, do casamento, do preconceito, do ciume, da inveja, do desespero, do amor  e assim vai… Acho que é exatamente sobre essas caixas que esse ano na França  me ensinou.

Na minha caixa, por exemplo, eu conhecia cada canto, cada centímetro e cor. Na minha caixa tem estados, varias cidades, heterogeneidade brasileira, favela, basquete, escola, um pouco de politica, um pouco de engenharia, bullying, preconceito regional  e varias mudanças, muitas mudanças. Porém, mesmo com muitas coisas em nossas caixas, as pessoas vivem discutindo muitas coisas que estão em outra caixa, que elas  nunca viveram, nunca cheiravam, nunca sentiram.

Exemplo, a caixa do preconceito racial sempre esteve perto de mim, eu sempre vi ela ali do lado, discutia esse contexto no Brasil com meus amigos, sempre foi um tema recorrente. A  caixa do preconceito racial sempre esteve perto a minha caixa. Eu conseguia ver o nome “preconceito racial” escrito em vermelho na caixa, conseguia ver suas pontas sujas, sua cor amarelada e desgastada e o barulho que saia de dentro dela. Mas nunca tinha entrado realmente dentro dela. E aqui na França, me colocaram na caixa, eu consegui sentir o preconceito racial, étnico  e a xenofobia. Consegui sentir, cheirar, tocar e rejeitar.  Te digo, sem ressalvas, sua postura em relação muda muito depois disso, tanto em relação a voce quanto em relação aos outros.

Mais vai além disso, o preconceito racial  foi só um exemplo. A França me colocou em muitas outras  caixas, me testou em varias situações, algumas ruins e algumas boas. Foi totalmente diferente das minhas outras experiencias. Morei em 9 cidades, 3 estados e 25 casas ( meu irmão pode me ajudar com essa conta) e mesmo com tantas mudanças, essa aqui acho que foi o mais legal(tanto para o lado ruim quanto para o lado bom). Mudou-se totalmente o perfil das companhias, perfil das atividades, da cidade e da língua.

O cara lá de cima me ensinava normalmente através das inúmeras pessoas extraordinárias que eu achei pela estrada, me mostrando situações e me fazendo absorver o que estas pessoas diziam. Dessa vez,  ele me jogou na piscina sem nadar e falou :

– Vai la cara, voce tem que encontrar a borda. ahuahuahua

Mais drama ou menos drama, esse ano na França, mais precisamente na Centrale, me fez entender muita coisa que eu pensava ja entender. Me fez rever alguns conceitos, conhecer culturas e como essas pessoas pensam. O fator cultural para entender algumas situaçoes e panoramas sempre foi subestimado por mim. Atualmente, ela é um dos fatores principais ( voce pode até pensar “isso é obvio, companheiro”, mas te digo que não é tão obvio quanto voce pensa).

Mesmo alguns companheiros de coloc me dizendo que “gosto de colocar pontinhos no mapa”, vou te dizer que na verdade estou em busca de novas caixas. Sendo elas de papelão, velhas, novas, frias ou quentes. Como o velho la de casa diz : Cavalo selado só passa uma vez. Espero conhecer e ter sabedoria para entender todas as caixas que a Europa tem para me dar(e preservar aquelas que o Brasil me proporcionou). Espero que ela continue me levando ao maximo em alguns quesitos e   não em outros hahaha. Bom, é isso, a busca por caixas continua, quem quiser, pode vir comigo!

Conclusões após o primeiro mês

Separei algumas conclusões do primeiro mes:

    Algumas generalizoes sobre determinado país podem ser verdadeiras. Mas não todas.

  Alguns franceses acreditam que em todo o Brasil podemos encontrar cobras nas ruas. Assim como os paulistas acredtivam do MS.

  O frances não é uma lingua dificil de se aprender. Muitas palavras são parecidas com o portugues/ingles e a lógica de formacão de frases é relativamente parecida com o portugues.

Se voce cercar o grupo de brasileiros que vai para centrale, vira um hospicio.Se cobrir, vira um circo. Comigo incluido.

Certos edificios e demais imagens que voce ve na TV só vão se tornar reais quando você ve-los com seus proprios olhos. E, acredite, voce vai se assustar muito.

Preconceito e ignorancia existem em todo lugar

Preconceito e ignorancia provem de falta de informação ou informações erradas. O Brasil precisa parar de falar que seu povo é burro e sim direcionar seus olhos ao que os veiculos de informaçao nos oferecem.

Me perguntaram se eu andava de helicoptero por São Paulo, afinal São Paulo  tem uma das maiores frotas de helicoptero do mundo.

Do mesmo jeito que a gente se acostuma com a pobreza, a gente esquece da beleza. Chega o mome to que voce esta olhando para o chao ao inves de olhar a sua volta. Edificios bonitos e pracas legais ficam invisiveis depois de um tempo. Sempre é bom olhar a sua volta e dar uma respirada. Existe muita coisa boa que voce ja esqueceu de ver e jogou na caixinha do cotidiano

Cada vez tenho mais certeza que somos a geracao do “Quero aqui e agora”. Nao sera na minha geracao que acalmara os animos desse grande mundo.

A copa do mundo e as Olimpiadas sera o melhor acontecimento ou o pior acontecimento para o Brasil. Todas as discussoes sobre a sua validade, NO MEU PONTO DE VISTA, sao desnecessarias.

Dilma, a franca tem bolsas de duplo diploma para estrangeiros, esse programa existe no Brasil faz mais de 10 anos. E ae, da para criar?

Morar em outro país deixa voce totalmente alienado sobre o que se passa no brasil. Nao sei ainda se esse pause de informacoes é bom ou ruim.

Por fim, eu finalmente descobrir para que serve um mapa. Um mapa não serve para voce saber onde estão as coisas. Um mapa serve para voce saber como chegar em algum lugar, para voce ter um caminho para trilhar. O seu mundo é aquilo que voce trilhou.

Texto feito no celular, precisando de um pc urgente.

Para cima de brasileiro?

Primeira palhaçada na terra do “queijo”  aconteceu hoje. Eu estava sem qualquer comunição  até hoje. Afinal, tiveram a bondade de me furtarem o note quando estava no brasileiro. Comprar um celular era uma necessidade . Pensei durante duas semanas, olhei direitinho e fui comprar. Até ae, tudo bem. Mas bom, chegando la, os vendedores pediram primeiramente X  documentos. Fomos atras. Quando voltamos, eles disseram que iriam abrir a conta. Estavamos eu e o Luis Henrique nessa brincadeira de celular. Pois então, no meio da compra a mulher peguntou se eu estou com um determinado codigo bancario da minha conta aqui na França. Disse que não, ela afirmou que não tinha problema. Pois bem, o rapaz que estava atendendo o Luis Henrique pensou de outra forma e afirmou que ele nao conseguiria comprar o celular sem esse codigo e que ele deveria ir ao banco pegar. Resumindo, esse codigo era necessario, porem pela cara deles quando estavam discutindo isso, iria dar um trabalhinho pegar esse codigo pela agencia de celular  e o cara nao quis dar o trabalho. O mais legal foi eles conversando e rindo em relaçao a isso. Nao querendo criar caso, fomos ao banco e pegamos o codigo.

 Voltamos a loja, entregamos o codigo e continuamos a compra. Pois bem, foi nessa hora que comecou a palhacada. Eles tinham que explicar varias coisas para nos. As vezes, nao entendiamos e pediamos para repetir, nos esforçando bastante para manter um dialogo. A palhacada é que durante as explicaçoes eles soltavam coisas um para o outro, entre os vendedores, tirando sarro da nossa cara, principalmente o francezinho. Coisas do tipo: ele entendeu o que voce falou? Qualquer coisa, voce pode desenhar para voce entender. Varias e varias vezes. Uma situação muito desagradavel. Afinal, estamos na França ha menos de um mes, estamos nos esforçando para aprender a lingua e a cultura dele, estamos jogando muito dinheiro brasileiro nos seus bancos e no mercado em geral. O que ele tinha que fazer é dizer muito obrigado por eu estar no pais dele, ajudando a França a sair do buraco. Sera que passa pela cabeça dele o quanto de dinheiro brasileiro deixa no pais dele por ano? Alem disso, o principal, sou um consumidor e ele deveria me tratar muito bem por ter escolhido a sua empresa.

  Pois entao,  para melhorar a situaçao, eles ficavam empurrando um milhao de itens adicionais e seguros. Enquanto isso, ficavam olhando um para o outro e dando pequenas risadinhas. Se fosse no Brasil, teria saido da loja na hora e nunca mais comprado da empresa. Mas como  a empresa é  o melhor custo beneficio disparado, fiquei por ali mesmo. Indignado com a falta de educaçao.

   Mas esse frances. Esse frances não, vou chama-lo de Monsieur Bixona. Entao, o Bixona não explicava as coisas direito, fazia mal caso, um pessimo funcionario. Mas tinha duas coisas que ele não sabia: portugues e que ele nunca deveria tirar sarro de um brasileiro se voce for um brasileiro.

Pois bem, terminando a jornada, peguei meu celular, o Luis pegou o dele,  o Bixona levou a gente par a porta da loja, deu saudaçoes francesas, o Luis devolveu as saudaçoes francesas e eu , no fim, olhando para ele com um sorriso brasileiro no rosto soltei:

Valeu, bichinha

Ele ficou com aquela cara de paisagem, viramos e fomos embora.  Não foi o bastante para melhorar o dia depois desse acontecimento, mas ja ajudou um pouquinho.

 

 

OBS: teclado frances é lixo. Foi mal pela brincadeira,mae. Nao aguentei.

Abertura

Eu não queria criar um blog para o intercâmbio. Os motivos eram três. Primeiro, uma das coisas que eu nunca consigo fazer é ser fiel a uma obrigacao  periódica. Já tentei escrever com periodicidade. É impossivel para mim. A partir do momento que eu falo: vou escre- ver todas as semanas. Pimba! A atividade perder toda a graca.

Segundo, esses blogs de viagem tem por destino a extincao. Todo mundo comeca um blog no comeco de viagem. Porém, sempre de- pois de algum tempo, as atividades no novo país se tornam cotidianas. O que era diferente , agora é igual. Logo, a atividade da escrita e da leitura se perde. Assim, depois de 6 meses somente sua mãe estará lendo seu blog.Seus amigos estarão de saco cheio daquele “Mais do mesmo”. Até seu pai mandará um e-mail com a seguinte mensagem:

Filho,

Eu te amo. Mas,por favor, pare com esse diarinho de menininha que voce está postando  na internet.

Saudades,

Seu pai.

Terceiro, eu tinha prometido  criar uma conta de Youtube para enviar videos sobre a minha estadia e minhas viagens. Assim, o blog seria desnecessario. Porém, depois de muitos acontecimentos e pensar um pouco, decidir criar essa conta. Sim, ela terá como destino a extincao. Sim, ela não será periodico. Mas, existem certas coisas que eu não conseguirei passar pelos videos. Coisas que eu gostarei de reler daqui algum tempo e isso aqui será uma boa oportunidade. Exemplo simples: jogar basquete com diversas nacionalidades. Isso foi demais, quero deixar isso registrado por aqui. Além disso, utilizarei o blog  para a postagem da maioria dos videos, o que servirá para unificar uma linha do tempo.

Em resumo, colocarei aqui textos sem periodicidade. Não será nada  como ” hoje fomos em tal lugar, la é bonito e bla bla bla”‘ e nem sobre como conseguir um intercambio pela Poli. Vou deixar aqui no canto o link para o blog do Mauricio. Se voce esta procurando esse tipo de informacão ele deixou isso bem explicadinho, não vou fazer um “Mais do Mesmo”. Além dele, vou deixar o blog  do Bruno  que também é bem legal.

Hoje faco duas semanas em Vichy. As duas primeiras semanas foram como o primeiro dia em uma escola nova. Tudo é novo para você, o tempo passa relativamente devagar e voce acha as pessoas da sua nova sala um tanto quanto estranhas. Bom,  é aquilo né, depois de algum tempo,  os dias passarão mais rapidos, você passará a conhecer sua escola inteira e as pessoam que antes eram estranhas… Bom, continuarão estranhas…

Fico por aqui.

Vai Corinthians!!!

Luis Felipe

obs: tive problemas para digitar esse texto nesse teclado, peco desculpas. Alem disso, a aparencia do blog e outras coisas serão arrumas posteriormente.